Deixa eu te contar uma parada que mudou completamente como eu uso IA.
Tava eu lá, tentando pedir ajuda pro ChatGPT com um negócio de código. Escrevi: “Como faço pra melhorar a performance do meu app React?”
A resposta? Tipo… ok. Genérica. Aquele monte de dica que você acha em qualquer artigo de 2019. Útil? Mais ou menos. Especial? Zero.
Aí eu mudei uma coisa. Uma coisa pequena.
“Você é um desenvolvedor sênior de React com 8 anos de experiência em otimização de performance. Como faço pra melhorar a performance do meu app?”
Cara, a diferença foi absurda. A resposta veio com técnicas específicas, mencionou React.memo, useMemo, code splitting, lazy loading, até falou de quando não otimizar prematuramente. Parecia que eu tinha contratado um consultor.
Isso é role prompting. E é provavelmente a técnica mais subestimada que existe.
O que é role prompting, afinal?
A ideia é simples: ao invés de só pedir algo pra IA, você define quem ela deve ser antes de responder.
É tipo assim: a IA foi treinada com conteúdo de milhões de profissionais diferentes — médicos, advogados, programadores, professores, redatores, tudo. Quando você fala “seja um X”, ela acessa os padrões de como esse profissional pensa, escreve e resolve problemas.
Pensa numa rádio. O conhecimento tá lá, em todas as frequências. O role prompting é você sintonizando na estação certa.
A estrutura básica
Não tem mistério:
Você é [papel/profissão]. [Seu pedido].
Pronto. Simples assim.
Exemplos rápidos:
Você é um nutricionista esportivo. Monte uma dieta pra ganho de massa magra considerando que eu malho de manhã.
Você é um professor de matemática que ensina adolescentes com dificuldade na matéria. Explica regra de três de um jeito que faça sentido.
Você é um redator publicitário da Nubank. Escreve um email de boas-vindas pra novos clientes.
Por que funciona tão bem?
Olha, não é mágica. É que o role prompting resolve vários problemas de uma vez:
Define o tom automaticamente
Um “atendente de SAC simpático” escreve diferente de um “advogado corporativo”. O papel já carrega o tom que você quer sem precisar explicar.
Ajusta o nível de detalhe
“Professor de cursinho” assume que você não sabe nada. “Colega de trabalho sênior” assume que você manja do básico. O papel define o quanto a IA vai explicar.
Foca a resposta
Quando a IA é um “contador”, ela aborda tudo pelo ângulo financeiro. Quando é um “psicólogo”, a mesma pergunta ganha outro tratamento. O papel cria uma lente consistente.
Ativa conhecimento específico
A IA tem informação de milhares de áreas. O role prompting puxa pro primeiro plano o conhecimento relevante pro seu problema.
10 papéis que eu uso toda hora
Vou compartilhar os que mais uso no dia a dia, com exemplos práticos:
1. O Revisor Sênior
Você é um desenvolvedor sênior revisando código de um junior. Seja construtivo, mas aponte problemas que eu possa ter deixado passar.
Uso pra revisar meu próprio código antes de abrir PR. Pega coisa que eu não tinha visto.
2. O Professor Paciente
Você é um professor que explica conceitos complexos pra iniciantes. Use analogias do dia a dia e linguagem simples.
Perfeito pra quando você tá aprendendo algo novo e os tutoriais são muito técnicos.
3. O Advogado do Diabo
Você é um crítico cujo trabalho é encontrar falhas em ideias. Desafia meu plano. O que pode dar errado? O que eu não tô considerando?
Antes de lançar qualquer coisa, passo por esse. Já me salvou de vários pepinos.
4. O Veterano
Você é alguém que já fez isso centenas de vezes. Quais erros iniciantes cometem? Que atalhos realmente funcionam?
Tipo ter um mentor disponível 24h.
5. O Cliente Típico
Você é uma mãe de 40 anos que não é muito ligada em tecnologia. Olha esse app e me diz: o que te confunde? O que tá faltando?
Ajuda demais pra testar usabilidade sem precisar de usuário real.
6. O Editor Exigente
Você é um editor de revista que valoriza clareza acima de tudo. Corta o que não precisa, mas mantém minha voz.
Meus textos ficam 30% menores e 50% melhores depois disso.
7. O Estrategista
Você é um consultor de negócios que pensa três jogadas à frente. Não só responde minha pergunta — me ajuda a ver o cenário maior.
Pra decisões importantes, esse papel é ouro.
8. O Divulgador Científico
Você é um comunicador científico tipo o Átila Iamarino. Explica [tema] de um jeito que um adolescente entenderia.
Pra simplificar assuntos técnicos sem perder a precisão.
9. O Entrevistador
Você é um recrutador de empresa de tecnologia me preparando pra entrevista. Faz perguntas difíceis, uma por vez. Dá feedback depois de cada resposta.
Simulei entrevista assim e consegui a vaga. Sério.
10. O Analista de Sistemas
Você é um analista que enxerga padrões e conexões. Me ajuda a entender como as peças se encaixam e onde estão os pontos de alavanca.
Pra problemas complexos onde você não sabe nem por onde começar.
Quanto mais específico, melhor
A diferença entre um resultado ok e um resultado incrível tá no detalhe do papel.
Genérico:
Você é um redator. Escreve uma bio pro meu LinkedIn.
Melhor:
Você é um redator especializado em perfis de LinkedIn pra área de tecnologia. Escreve bios diretas, sem clichês, que mostram resultados concretos.
Ainda melhor:
Você é um headhunter de tech que já leu milhares de perfis de LinkedIn. Sabe exatamente o que chama atenção de recrutadores de empresas como Nubank, iFood e Mercado Livre. Escreve uma bio pra um desenvolvedor Python com 3 anos de experiência que quer migrar pra área de dados.
Detalhes que fazem diferença:
- Experiência: junior vs sênior, 2 anos vs 15 anos
- Especialização: “redator” vs “copywriter de e-commerce”
- Estilo: “objetivo e técnico” vs “criativo e descontraído”
- Valores: “prioriza simplicidade” ou “foca em conversão”
Combinando role prompting com outras técnicas
A coisa fica ainda mais poderosa quando você junta com outros métodos:
Papel + Tarefa + Formato
Você é um UX researcher [papel]. Analisa essas respostas de pesquisa com usuários [tarefa]. Apresenta os insights em bullets agrupados por tema, com citações diretas como evidência [formato].
Papel + Restrições
Você é um nutricionista [papel]. Monta um cardápio semanal [tarefa]. Só pode usar ingredientes disponíveis em feira de bairro [restrição]. Custo máximo de R$200 [restrição].
Papel + Exemplos
Você é um atendente da Netflix Brasil [papel].
Exemplo de resposta boa:
Cliente: "Não consigo cancelar minha assinatura!"
Resposta: "Opa, entendo a frustração! Vou te ajudar agora. Qual o email cadastrado na conta?"
Agora responde:
Cliente: "Cobraram duas vezes esse mês!"
Resposta:
Quando role prompting não ajuda tanto
Nem tudo precisa de persona. Às vezes atrapalha mais que ajuda:
- Perguntas factuais simples: “Qual a população do Brasil?” não precisa de papel.
- Quando você quer neutralidade: Se precisa de análise equilibrada, um papel forte pode enviesar.
- Tarefas muito técnicas: “Converte esse JSON pra YAML” funciona melhor com instrução direta.
E olha, papéis muito genéricos tipo “seja um assistente útil” não acrescentam nada. O poder tá na especificidade.
O segredo: papéis são instruções disfarçadas
Sabe o que tá rolando por baixo dos panos?
Quando você fala “seja um professor paciente que usa linguagem simples”, você tá dizendo “seja paciente, usa linguagem simples”. O formato de papel só empacota várias instruções de um jeito mais natural.
Um bom papel carrega implicitamente:
- Tom (formal, informal, técnico)
- Nível de expertise (o que assumir)
- Estilo de comunicação (conciso, detalhado, narrativo)
- Prioridades (no que focar)
Você poderia escrever tudo isso explicitamente. Mas “seja um desenvolvedor sênior” é mais rápido e muitas vezes mais efetivo do que listar doze instruções separadas.
Template pra você começar agora
Você é um [papel específico] com [experiência/expertise relevante].
Seu estilo de comunicação é [descrição do tom].
Você prioriza [valores ou focos principais].
[Seu pedido/pergunta]
Não precisa usar tudo sempre. Mas saber o que você pode especificar ajuda a calibrar o resultado.
Testa aí
Pega algo que você perguntou pra IA recentemente e recebeu uma resposta meh.
Adiciona um papel. Seja específico. Vê o que muda.
Aposto que vai virar uma das técnicas que você mais usa. É simples, é rápido, e funciona pra quase tudo.
Dá um papel pra IA e vê ela entregar o que você realmente precisava.